Opinião: A perda do mundo natural e as nossas emoções

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No meu regresso a casa vi a árvore que tantas vezes defendi de ser cortada, com dor, ferida de morte. A angústia que senti foi enorme. Um ser para mim; visto como coisa para outros. O enorme tronco que sustentava esta frondosa árvore-abrigo-de-vida, que cresceu durante mais de 24 anos, começava a dividir-se em dois, parecia que um raio tinha desaguado ali, ou quiçá seja a expressão das dicotomias que povoam o mundo atual e que são obstáculos à vida, ao equilíbrio, ao bem-estar e à paz. Naquela manhã, em que mal tinha chegado e já me preparava para seguir caminho rumo a novos contextos, um silêncio absurdo pairava no ar, uma silenciosa despedida parecia anunciar-se. Com esta árvore, apesar de especial, penso em tantas outras, que formam florestas, que combinam ecossistemas onde nos relacionamos e no mundo natural ao qual pertencemos sem o reconhecermos. Estamos em perda. À medida que as alterações climáticas continuam a remodelar o nosso planeta, a perda do mundo natural emerge, não apenas como uma mera crise ambiental, mas como uma profunda transformação, cultural, emocional. Mas é mais do que isso. É o pano de fundo onde se exige uma enorme transformação estrutural. Sacudam lá as sociedades e as naturezas, recuperem os elos perdidos, as ligações, as interconexões, as superdiversidades, as visões mais cuidadoras de uns/umas e outros/as, e constituam-se através de uma verdadeira revolução que nos salve, tudo e todos, em todo o lado, porque quando o grande equilíbrio entre vida e morte se perde, a morte prevalece. Será que já não é possível?
Desde os gelos milenares que se derretem e se desfazem no ar rapidamente, aos recifes de coral que branqueiam e morrem, por todo o lado a terra grita por atenção de múltiplas formas, ressoa em nós a doença e a morte. E com isto não é apenas a biodiversidade que está em jogo, é a nossa própria identidade coletiva e bem-estar emocional.
Os dados são alarmantes e irrefutáveis, os cientistas e os ambientalistas pedem atenção e urgência na ação. As comunidades costeiras enfrentam inundações e perdas de territórios habitáveis, os agricultores lidam com colheitas falhadas e um pouco por todo o lado vivemos a degradação ambiental e a busca de terra para viver, os invernos e verões alcançam variabilidades e extremos nunca antes imaginados. Esta é a realidade diária de milhões de seres.
Durante a minha experiência de trabalho no Brasil, testemunho as cicatrizes deixadas por práticas neocoloniais que persistem. Muitos povos indígenas foram forçados a abandonar as suas terras ancestrais, frequentemente empurrados para a periferia das grandes cidades ou isolados nas montanhas, onde enfrentam os impactos brutais de um clima cada vez mais agressivo e variável. Essa mudança forçada de habitat tem consequências devastadoras, na medida em que exige uma transformação do modo de vida para o qual não estão preparados. Ninguém está. Habitando as áreas periféricas e desvalorizadas, as suas casas são frequentemente destruídas por tempestades, as famílias são deslocadas e a coesão social é abalada. E tudo se reproduz num eterno devir. A desestabilização emocional causada evidencia esta multiplicidade de fatores que penetra profundamente nas gerações mais jovens, levando a um aumento alarmante dos sofrimentos e da morte. A perda das suas terras, a luta diária pela sobrevivência e o confronto contínuo com adversidades ambientais tornam as suas vidas cada dia mais difíceis.
Não podemos permanecer passivos. Cada um de nós tem um papel na proteção do mundo natural (todos somos natureza). A luta contra a crise climática não é apenas sobre salvar o planeta; é sobre salvar as inúmeras vidas, humanas e não-humanas, que o habitam. Não permitamos que o grito silencioso da nossa Terra se torne um legado de perda irrecuperável.

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